Grupo espalha ódio, racismo e faz ameaças na Internet

Espaço virtual reúne racistas, pedófilos, misóginos e homofóbicos que defendem seus ideais distorcidos e ameaçam quem tenta desafiá-los

Grupo espalha ódio, racismo e faz ameaças na Internet -


Prepare o estômago. Você vai entrar agora em um universo asqueroso, onde o respeito às diferenças e à vida humana não têm nenhum valor. Nas entranhas da Internet, distantes do conhecimento dos usuários comuns, estão escondidos os chans, fóruns anônimos onde os usuários se conectam sem nome e nem senha. Em teoria, qualquer pessoa pode participar de um chan. Mas, na prática, não é tão fácil. Os chans não aparecem em sites de busca, como o Google, e é preciso saber o endereço exato para conseguir acesso.


Uma vez dentro, o novato corre riscos. Muitos membros dos chans são hackers capazes de identificar com facilidade o IP (identidade eletrônica) dos computadores que entram no espaço. Quem é considerado um intruso pode ter o computador invadido e sofrer prejuízos, como ter o nome identificado, os endereços eletrônicos expostos e até o endereço físico, da residência, divulgado para que outros membros façam “brincadeiras”, como pedir dezenas de pizzas para o local. Porém, não são raros os casos em que as pessoas consideradas “inimigas” são ameaçadas de morte.

É o caso da professora de literatura em língua inglesa da Universidade Federal do Ceará Lola Aronovich, conhecida pelo blog feminista “Escreva Lola Escreva”.

Ela foi uma das primeiras a denunciar as postagens de ódio contra mulheres e homossexuais feitas pelos membros de um chan brasileiro, o “Dogolachan”. O grupo também realiza ataques racistas, apesar de vários integrantes serem negros. Como resultado, Lola recebeu inúmeras ameaças de morte. Membros do chan chegaram a oferecer um prêmio pela cabeça da professora, que já registrou 11 boletins de ocorrência por causa das ameaças.

Lola também foi a primeira a ligar membros do Dogolachan a crimes violentos praticados na vida real. O mais recente aconteceu em Penápolis, no Noroeste Paulista.
No dia 16 de junho, André Luiz Gil Garcia, de 29 anos, conhecido no chan como “Kyo Del Fuego Sancto”, se conectou ao grupo e anunciou que pretendia se matar. Foi incentivado por outros membros a não cometer suicídio sem, antes, matar alguém. 

Kyo cumpriu a ameaça. Saiu de casa com uma arma comprada ilegalmente e abordou duas jovens que estavam sentadas em um banco, em frente às barracas do comércio popular de Penápolis. Assustadas, elas se levantaram e tentaram se afastar do desconhecido, mas ele sacou a arma e atirou na nuca de uma delas. Luciana de Jesus do Nascimento, de 27 anos, estava consciente quando foi socorrida e disse a várias testemunhas que não conhecia o atirador. Foram suas últimas palavras. A jovem foi operada, mas não acordou. Permaneceu em coma até o dia cinco de julho, quando morreu na Santa Casa de Araçatuba (SP).

Depois de atirar em Luciana, Kyo correu até uma avenida próxima, onde encontrou um carro da polícia. Naquele momento, os policiais ainda não tinham ideia do que estava acontecendo. Mesmo assim, o rapaz atirou contra o próprio peito, deixando outra família de luto, a dele, que não sabia das atividades criminosas do jovem na Internet. 

Masculinistas 

A morte de Kyo teve uma grande repercussão entre os membros do chan. Alguns fizeram homenagens e consideraram o rapaz como uma espécie de “mártir” de uma causa perdida: o masculinismo. Segundo Lola, masculinistas são membros de um movimento que vem surgindo em várias partes do mundo.

Eles afirmam defender os “homens de bem”, no caso, homens brancos e heterossexuais que, para eles, estão perdendo espaço em uma sociedade cada vez mais dominada por mulheres, gays e negros.  “Os machistas acreditam que nenhuma mulher presta, só a mãe. Já para os masculinistas, nem a mãe presta”, comenta Lola Aronovich. “Eles também culpam os negros e as mulheres por seus fracassos pessoais. É aquele discurso de quem não consegue uma vaga em concurso e diz que é por causa das cotas.” 

Mas nem todos acreditavam na capacidade criminosa de Kyo. Muitos membros do chan reagiram ao ato de violência com extrema surpresa. Para eles, Kyo era um “Jorge”, termo equivalente ao “nerd” americano, porém sem a conotação da inteligência. Enquanto um “nerd” é inteligente e estudioso, um “Jorge” é desajustado e sem futuro. Em várias postagens, Kyo é ridicularizado pelos outros membros do chan, que o chamavam de inútil e covarde.

Acompanhando as postagens do Dogolachan é fácil perceber que existem dois grupos distintos no espaço virtual. O primeiro é formado por pessoas desajustadas que realmente acreditam nos ideais deturpados que pregam, como a legalização do estupro, da pedofilia, e a inferioridade da mulher. O outro grupo é de sádicos, que se divertem com as postagens criminosas e incitam os psicologicamente mais frágeis a cometerem atos violentos. 

Kyo esteve nos dois grupos. Segundo Lola, ele se vangloriava de ter sido o mentor do “massacre de Realengo”, em 2011. Ele teria incentivado Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, a entrar armado em uma escola do Rio de Janeiro e atirar nos estudantes. 

Os dois se comunicavam por meio do Orkut e outros espaços virtuais usados na época. O ataque terminou com dez meninas e um menino mortos. O atirador se matou. Sete anos depois, Kyo estava na mesma posição de Wellington: foi incentivado a matar e, depois, acabar com a própria vida.

Líderes

Ainda de acordo com Lola, o grupo que hoje se comunica pelo chan nasceu há mais de uma década, na época da rede social Orkut. Quando não existiam leis contra crimes na Internet, eles criavam comunidades racistas, misóginas (de ódio contra as mulheres) e homofóbicas. Depois, migraram para sites e, recentemente, para os chans.

As postagens em um desses sites, o Silviokoerich.org, hoje fora do ar, renderam a prisão do principal líder deles, Marcello Valle Silveira Mello, durante a Operação Intolerância da Polícia Federal, em 2012. Marcello passou poucos meses preso, porém voltou para a cadeia em março deste ano durante a Operação Bravata de combate a crimes de racismo e incitação ao terrorismo praticados pela Internet. Marcello, que usava o apelido Psy, foi citado por Kyo em mensagem deixada no chan horas antes de atirar na jovem de Penápolis. “Marcello, quando você sair da cadeia, seja feliz, coisa que nunca consegui na vida desde que nasci”, escreveu.

Outro ex-líder do grupo é Emerson Eduardo Rodrigues Setim, que usava o verdadeiro nome na Internet. Ele também foi preso em 2012, mas atualmente está foragido e é considerado um traidor pelos integrantes do chan, por supostamente ter revelado a identidade de membros do grupo à Polícia Federal.

Segundo Lola, quando Marcello e Emerson foram presos em 2012, Kyo manteve o site Silviokoerich.org ativo. Depois que o endereço eletrônico foi banido, após milhares de denúncias, Kyo continuou a postar textos e vídeos, a maioria de conteúdo misógino, no Dogolachan.  Este ano, quando Marcello foi preso pela segunda vez, o jovem de Penápolis desapareceu das redes sociais por várias semanas. Quando reapareceu, foi para anunciar o suicídio.

Ideais distorcidos

Navegar pelo Dogolachan provoca uma mistura de surpresa e nojo. A base da ideologia masculinista vem da ideia de que as mulheres não teriam nenhum valor, seriam apenas objetos sexuais que deveriam ficar à disposição dos homens. Para os masculinistas, uma pessoa do sexo feminino deveria se submeter a qualquer homem que a queira, mesmo se ela for uma criança. Por isso, pregam a legalização da pedofilia e do estupro. “Se um homem não pode usar a força física para subjugar uma mulher, ela não poderia usar sua aparência para nos dominar”, defende um dos internautas em uma postagem anônima.

Para eles, as mulheres não se interessam por bons homens, mas apenas por aqueles que possam proporcionar passeios, dinheiro e presentes. Quando uma mulher não se interessa por um deles, acreditam que é por não poderem oferecer os bens materiais que elas gostariam de ter e nem cogitam a possibilidade de serem pessoas desagradáveis ou sem traquejo social.

“Vocês já pensaram na hipótese de vocês serem chatos, quero dizer, muito chatos mesmo?”, questionou uma internauta em um dos tópicos do chan. A pergunta foi respondida com um ataque. Poucos segundos após a postagem, a jovem teve o computador invadido e diversas fotos de seu Facebook reproduzidas no chan, junto com ameaças de estupro e morte.

Outra ideia masculinista é que não existem mulheres homossexuais. As lésbicas estariam se relacionando entre si apenas para humilhar os homens. Por isso, deveriam ser estupradas, para que aprendessem a “gostar de homens” à força.

De todas as bizarrices defendidas pelo grupo, talvez a mais chocante seja a afirmação que meninas seriam propriedade do pai, que teria o direito de fazer o que quisesse com seus corpos. Inclusive, iniciá-las sexualmente. Resta saber o que é mais assustador: o fato de algumas pessoas acharem essas postagens divertidas a ponto de frequentar o chan e alimentar cada tópico de discussão com comentários, ou a existência de homens que realmente acreditam nessa ideologia, a ponto de matar e morrer para defendê-la.

Goec

Atualmente o Dogolachan está fechado para novos membros. Quem acessa o link da rede social encontra uma mensagem afirmando que fórum foi criado por estudantes de português da malásia. Para entrar é preciso enviar um e-mail solicitando autorização, só assim o IP, que é a identidade eletrônica de um computador, é liberado.

O responsável por liberar ou não o IP é Goec, o novo líder do grupo, que assumiu após a morte de André Luiz Gil Garcia, o Kyo. Goec, também conhecido como Alemão, já fez vítimas no mundo real. Uma delas é o analista de sistemas Ricardo Wagner Arouxa, morador do Rio de Janeiro. Ricardo se tornou “inimigo” de Goec após uma discussão banal no antigo Orkut. O analista de sistemas teria questionado as regras que Goec queria impor em uma comunidade sobre futebol. Por causa disso, o hacker criou um site racista chamado “Rio da Nojeira” no nome do analista de sistemas, que teve seus computadores e celulares apreendidos pela Polícia. O depoimento do analista e as investigações da polícia comprovaram a falsa atribuição de crime, mas seus equipamentos ainda estão em poder da Justiça.

Goec não foi identificado pela reportagem, que acompanhou as atividades do hacker durante alguns dias. O que se sabe até agora é que ele utiliza endereços de IP “terceirizados”, ou seja, de computadores invadidos, para realizar suas atividades criminosas. Há suspeita que, além dos ataques racistas, homofóbicos e misóginos, ele também pratique fraudes financeiras por meio da Internet.

Macaco Confederado

Enquanto a verdadeira identidade de Goec ainda é um mistério, outro membro do Dogolachan, que se tornou bastante ativo após a morte de Kyo, foi identificado pela reportagem. B.A.S. é morador de Franca, no interior de São Paulo. Recentemente, ele publicou um vídeo com ameaças à blogueira feminista Lola Aronovich. Na gravação, divulgada no Dogolachan, ele afirma que pretende matar Lola e, em seguida, cometer suicídio, como uma homenagem a Kyo.
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Assim como Goec, B.A.S. já fez vítimas fora da Internet. No ano passado, ele agrediu Leontter Reche, em uma praça de Franca. “Eu estava com dois amigos e esse rapaz chegou dizendo que estou promovendo o racismo contra os brancos, por fazer parte do movimento negro. Em seguida, ele me agrediu com um capacete”, lembra Leonter, que é membro do Conselho Municipal de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra de Franca. 

Além da violência inesperada, o que surpreendeu o ativista é que B.A.S. também é um rapaz negro. Depois do incidente, Leontter passou a investigar B.A.S.: “Ele pertence a um grupo neonazista aqui de Franca, que prega a supremacia branca, e se intitula um pardo de alma branca”, declara Leontter. “Na Internet, usa o apelido Macaco Confederado, uma referência aos confederados do Sul dos Estados Unidos, que eram contra a abolição dos escravos”, conta. “Também faz campanha para candidatos de extrema direita, pois quer a liberação das armas.”

Leontter registrou um Boletim de Ocorrência contra B.A.S. e entregou um vídeo da agressão à polícia, mas a investigação caminha a passos lentos. Enquanto isso, o ativista recebe ameaças anônimas de agressão e de morte pela Internet.

Nossa reportagem encaminhou o vídeo onde B.A.S. ameaça Lola Aronovich à Polícia Federal, além do nome completo e da cidade onde ele reside. O caso está sendo investigado pela delegacia de Ribeirão Preto.

No Dogolachan, a repercussão do vídeo é tão doentia quanto a ameaça. Vários internautas afirmaram que se “Macaco Confederado” cumprir o que prometeu e matar Lola Aronovich será, enfim, considerado um membro do grupo. Deixará de fazer parte da “escória da sociedade” e será “promovido” a “homem branco”.


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